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Como um jogo BR de robôs gigantes conquistou a publisher de Farming Simulator

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Como um jogo BR de robôs gigantes conquistou a publisher de Farming Simulator 1

A indústria brasileira de games recebeu uma notícia surpreendente no final de agosto. A Modus Games, selo indie da publisher Maximum Games (Farming SimulatorVampyrA Plague Tale: Innocence), anunciou a compra do estúdio brasiliense The Balance Inc., do jogo de robôs Override: Mech City Brawl.

Rebatizada de Modus Studios Brazil, a empresa é a primeira desenvolvedora no mundo da Modus, que já tem escritórios de distribuição nos EUA e no Reino Unido.

Mas como isso aconteceu?

Os resultados positivos de Override, a estratégia da Modus de contar com recursos internos de desenvolvimento para sustentar seu plano de distribuição de games indie e a mão de obra mais barata no Brasil ajudam a explicar esse movimento que abre um precedente e pode mudar o mercado nacional de jogos.

“É ótimo pra gente porque continuamos trabalhando sem se preocupar, como antigamente, no que fazer depois de um projeto terminar”, diz Lucas Carvalho, diretor técnico da Modus Studios Brazil.

“E sempre foi importante pra gente ajudar a cena de desenvolvimento, em primeiro lugar, brasiliense. E também a brasileira. Capacitar profissionais e colocar mais gente no mercado de trabalho. E agora temos o dinheiro para expandir a equipe e treinar pessoas”, completa.

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Modus Studios Brazil/Divulgação

De Brasília para o mundo

Pouco conhecida fora da cena de games de Brasília, berço de devs como a Behold Studios (Knights of Pen and Paper), a The Balance Inc. surgiu em 2011, com seis pessoas, no IDJ, um curso introdutório de desenvolvimento de games da UnB fornecido a alunos de Ciência da Computação, Design e Música.

Antes de Override: Mech City Brawl, a empresa só havia lançado um título para smartphones: Goat’Em Up, de 2012, em que o jogador controla uma cabra pistola que saltita por fases nos Alpes, Egito e Japão atrás de um irritante cantor de Iodelei.

O game foi lançado para Android e iOS. O estúdio não comenta o seu desempenho comercial, mas Goat’Em Up chamou atenção da mídia, chegando a aparecer em um artigo do site norte-americano Kotaku.

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Kotaku/Reprodução

Dois anos depois, a equipe aproveitou a movimentação da Global Game Jam 2014 para trabalhar no primeiro esboço daquilo que se tornaria Override: Mech City Brawl.

“Na época, a gente estava buscando ideias para jogos cooperativos, com multiplayer local, e uma delas foi fazer algo no esquema Megazord”, diz Rafael Gatti, gerente geral da Modus Studios Brazil.

“E se tivéssemos um robô que pudesse ser controlado por várias pessoas?”, explicou. “Mas daí em diante mudou muita coisa. O próprio esquema de ser um jogo de luta apareceu depois de mais de 1 ano”.

Gatti conta que grande parte do estúdio é fã da cultura pop japonesa, como animes, mangás e tokusatsus — o gênero de séries que envolve batalhas explosivas com super-heróis, monstros e robôs (geralmente gigantes). Mas isso não limitou as aspirações de Override.

“A gente tentou dar peso aos mechas já que você está controlando uma máquina que destrói uma cidade. Por isso, a gente vê que o jogo funciona bem tanto para quem é fã como também para quem só quer destruir coisas”, diz.

Naquele mesmo ano, a The Balance Inc. embarcou na onda do financiamento coletivos e publicou Override no Kickstarter, mas o projeto não decolou: foram arrecadados apenas US$ 14,4 mil do objetivo de US$ 98 mil.

O estúdio sobreviveu tocando outros projetos de desenvolvimento de games até 2016, quando conseguiu um contrato de distribuição com a Modus Studios na Game Connection America, evento de negócios que acontece durante a GDC, em São Francisco, nos EUA.

E foi aí que o jogo virou.

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Modus Studios Brazil/Divulgação

Trazendo os mechas para dentro de casa

Override: Mech City Brawl foi lançado em dezembro de 2018 para PlayStation 4Xbox One e PC. Curiosamente, após todo seu conteúdo adicional chegar em 2019, quem trouxe uma proposta para a mesa desta vez foi a publisher.

Em entrevista ao site GamesIndustry.biz, a CEO da Modus Games, Christina Seelye, não revela cifras, mas afirma que Override foi bem de vendas, deu lucro para a empresa e “é uma marca que queríamos continuar fazendo crescer”.

Ainda para Seelye, a agora Modus Studios Brazil também fortalece o objetivo da companhia de “levar serviços de distribuição AAA para desenvolvedores independentes”“alavancando nossos recursos internos e fornecendo aos devs mais acesso a recursos de produção de alta qualidade”.

“Nosso estilo, abordagem e ética de trabalho se alinhou desde o princípio e, no fim das contas, vimos neles uma ótima equipe da onde construiríamos a fundação para um estúdio de longo prazo no Brasil”, diz Seelye.

“Em termos de consumo, o mercado brasileiro é imenso. Tem muita gente que joga. E em termos de desenvolvimento, é um mercado jovem, mas muito promissor”, afirma Lucas Carvalho.

“Fora que se você for comparar a mão de obra de um dev brasileiro com a de um americano ou canadense, obviamente o dev brasileiro sai mais barato”, diz.

Segundo Carvalho, com a negociação, a The Balance Inc. foi incorporada e deixou de existir. No lugar dela, foi aberta uma nova empresa chamada Modus Studios Brazil, na qual trabalham os sete agora ex-funcionários da The Balance Inc.

“Espero que com isso consigamos mostrar pra outros players internacionais que existem oportunidades aqui no Brasil. E que agora fique mais fácil trilhar o caminho das pedras”, comenta Rafael Gatti.

A Modus Studios Brazil não revelou se foi paga alguma quantia pela incorporação do estúdio, ou se a antiga equipe da The Balance Inc. foi apenas recontratada sob a nova marca.

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Modus Studios Brazil/Divulgação

Próximos passos

O primeiro projeto da equipe é a versão de Override: Mech City Brawl para Nintendo Switch, uma edição definitiva do jogo com todos os DLCs já disponíveis. O lançamento será ainda em 2019.

E, assim como nos casos de Dandara, da Long Hat House, que ganhou destaque em vídeos da Big N; e Ninjin: Clash of Carrots, da Pocket Trap, que vendeu quatro vezes mais no Switch do que em outras plataformas, esse port de Override é uma realização tanto profissional quanto pessoal para os brasileiros da Modus.

“É engraçado que a gente comentou isso aqui. Mesmo tendo lançado para PC, PlayStation 4 e Xbox One, o fato de trabalhar com uma plataforma da Nintendo tem um significado emocional que a gente compartilha por ser gamer brasileiro”, diz Lucas Carvalho.

O diretor técnico também comenta como se inverteram as comparações de Override com outros jogos do gênero.

“Quando o jogo ainda não havia sido lançado, comparavam muito com War of the Monsters e Robot Alchemic Drive, jogos de PlayStation 2 bem conhecidos na cena de mechas”, diz.

“Mas recentemente vimos o trailer de Giga Bash, um outro jogo de mecha que vai ser lançado, e a galera nos comentários comparando ele com o Override. Esse tipo de resposta é muito legal”.

Depois disso, a equipe de Brasília ainda não sabe se irá trabalhar em um projeto autoral ou se irá auxiliar a matriz em tarefas para outros estúdios.

“Não mudou muita coisa no nosso dia a dia. Continuamos trabalhando no que precisamos trabalhar. E eles continuam publicando. A diferença é que agora temos acesso a todas as áreas da Modus. E eles têm acesso a nossos funcionários para trabalhar em algum projeto deles”, completa Carvalho.